QUAL É A GRAÇA?

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QUAL É A GRAÇA?

Ontem, por duas vezes, fui repreendido por esboçar sorrisos enquanto a reportagem de TV discorria sobre um médico brasileiro às voltas com a justiça egípcia em um caso de constrangimento sexual contra uma vendedora de papiro. Afinal, isso tem ou não tem graça? A resposta mais fiel com o que sinto é: não tem e tem.

Durante a nossa infância, a escatologia domina o humor dito “proibido” – aquele riso provocado mais por estarmos nervosos, trilhando um caminho delicado e repleto de incômodo. O xixi e o cocô, a meleca do nariz, o ranho, o pus, o catarro e o vômito, reais ou simbólicos, são ofertados para retirar do nojo o constrangimento. E rir das reações dos outros.

Porém, a graça da escatologia perde grande parte de sua eficiência com o passar dos anos. A maturidade tem esse condão. Ainda assim, desafio qualquer um agora a imaginar uma cena bem formal, repleta de autoridades intocáveis, na qual o silêncio reverente é rompido por um sonoro pum e… não sorrir. O peido pode ser tipo metralhadora ou apito, não importa. Não deveria, mas é gozado.

A partir da puberdade, o sexo aos poucos se mescla e, por fim, torna-se protagonista no humor de mau gosto. Os tabus serão trabalhados de forma a romper com a educação da mesma forma, e as gargalhadas nascerão do desconforto com este alien que começa a crescer dentro (e fora) de nós – o adulto. Haverá vilania e vítimas, muito sofrimento. Na melhor das hipóteses, será uma fase.

Diferentemente da escatologia, o sexo perde menos o poder de nos perturbar. Durante alguns saraus de textos eróticos que participei, o riso estava tão mais presente do que a excitação – pura válvula de escape. Ainda assim, todos lá estavam por livre e espontânea vontade, e ninguém foi vítima do constrangimento dos palavrões ou indecências temperando contos e poemas. Adultos, todos.

Eis meu endereço de chegada para estas linhas: o que fez o rapaz no Egito para eu achar graça? Nada diferente do que um adolescente faria com estrangeiros: ensinar palavras erradas ou envolver em situações constrangedoras pessoas com a inocência da ignorância e a pureza da confiança. Com isso, encenou seu humor de mau gosto. Mas fez pior: agiu entre homem e mulher, também entre cliente e balconista – situações típicas de prevalecimento machista.

Almas imaculadas jamais riram de xixi e de cocô, nunca riram de nada ligado ao sexo. Nem acham a menor graça nisso. Almas imaculadas, lamento, não existem. Se você esboçou um sorriso na bobagem protagonizada por um homem adulto, cena digna de um adolescente boboca de quatorze anos, por solidariedade de pecador, está perdoado. Ele, espero que sofra as severas consequências de maltratar as pessoas para fazer seu humor chulo. Recusar-se a crescer, no fim, é apenas triste.

Rubem Penz

Publicitário, escritor e músico

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