ALDEIA

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ALDEIA

Fui surfista. Passava parafina na prancha, estufava o peito, ia pra beira, procurava o melhor point e entrava no mar. Mas, bem de cantinho, confesso que raramente eu dropava direito. Já tomei várias vacas e já fui sugado várias vezes pelo repuxo. Depois de uma baita vaca, vários desistiam. Mas eu não desistia tão fácil.

Se tava tomando muito caldo nos côcos, respirava, remava contra as ondas, as furava, passava de arrebentação e lá me ia pra outra.

Apesar dessa minha insistência ter sido dolorida e cansativa, fui premiado com ensinamentos valiosos. Quanto mais arrebentações eu passava, menor ficava a frequência das ondas, maiores elas ficavam e mais altas ficavam suas cristas. Algumas até permitiam entubar. O intervalo entre uma onda e outra aumentava progressivamente a medida que as arrebentações iam passando, mas as séries continuavam sempre regulares.

Os meus mergulhos meditativos possuem uma correspondência exata com as passagens de arrebentações. As reações que o meu corpo tem, bem como as da minha consciência, são exatamente iguais. Inclusive, a regularidade misturada com a imprevisibilidade do mar também é exatamente igual.

Quando se passa uma arrebentação, vem uma calmaria até chegar no lugar onde se quebra as ondas. Isso também faz parte dessa relação.

Para conseguir surfar altas ondas meditativas, eu preciso respirar fundo, me libertar dos grilhões da razão e passar as arrebentações do cérebro. Depois, separa um lugar nessa areia, nós vamos chacoalhar sua aldeia.

Paulo Ricardo Silveira Trainini

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