NÃO É NÃO

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NÃO É NÃO

Eu tenho a impressão de que a evolução do cérebro causada pelo prazer proporcionado por alguma coisa ou hábito, tem uma correspondência direta com a evolução de um vício.

Mas, diferente que um vício, se a coisa ou hábito que proporciona prazer variar de maneira periódica e imprevisível, nunca se torna doentio como um vício. Ou seja, o prazer pode nos acompanhar a vida inteira sem virar doença.

Imagina que essa coisa ou hábito é um rio e o prazer é um peixe onde ele nada. No final desse rio, tem uma queda d’água… Mas, antes da queda, o peixe pega um afluente (varia a coisa ou hábito que proporciona prazer) e, apesar de aumentar o caminho, chega no destino sem passar pela queda d’água. E isso acontece de maneira completamente irracional. Ainda, quanto mais virgem for esse rio, mais perfeita é essa comparação.

Eu preciso dar uns sustos no cérebro pra induzi-lo reduzir a amplitude do foco e pegar caminhos alternativos (pegar afluentes estreitos). Um exemplo desses sustos, que eu repito todos os dias, é dar um choque térmico no corpo no final do banho, passando de quente pro frio instantaneamente.

Durante o dia, eu estimulo esses sustos várias vezes. Por exemplo, decidir trocar de mão que escova os dentes um segundo antes da troca. Outro exemplo, sentir vontade de ir ao banheiro longe de um banheiro. E por aí vai…

Agora, imagina que esses sustos são rugidos de um animal selvagem numa mata, que vão ficando mais altos a medida que se repetem. Até que, de repente, silenciam… Bah.

Quanto menor for a amplitude do meu foco, menor é a minha vontade de olhar pro relógio e mais rápidos ficam meus reflexos. Eu fico parecendo um peixe voraz, que só quer comer e seguir em frente.

Hoje, eu não vou mais em academias de ginástica. Ao invés disso, pratico diariamente exercícios em casa, sozinho. De tempos em tempos, eu procuro uma orientação fisioterápica para aprender a maneira certa de variar os exercícios que combatem os sintomas da minha doença. Mas sempre vario a orientação. Agora compara essa orientação com aquele rio e eu com o peixe.

Uma bateria alcalina funciona beleza até acabar a energia. Quando a energia acaba, ela “puf”: passa do estado de funcionamento normal para morta. Uma bateria comum vai se deteriorando à medida que a energia vai diminuindo. Ela vai minguando, minguando, até que morre. Agora compara uma bateria alcalina com um peixe que sempre pega afluentes e uma bateria comum com um peixe que nunca sai do rio que está nadando.

É normal termos as nossas preferências, que são as coisas ou hábitos que menos variamos. Mas, ainda que com bem menos frequência, elas precisam variar. Agora, imagina que essas preferências sejam os rios principais e eu o peixe.

Eu medito parando totalmente o raciocínio e me concentrando num ponto. Agora, imagina que eu meditando seja um peixe cego escolhendo um caminho, entre dois, para seguir em frente.

Quanto mais eu vario as coisas, maior fica a minha resiliência e capacidade auto didática. O cérebro é o único órgão do corpo humano que consegue evoluir até o fim. Mas só consegue se variar as coisas. Quando ele quiser se acomodar na mesma coisa, diz “não”. Não é não.

Paulo Ricardo Silveira Trainini

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