OVERFLOW

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OVERFLOW

Após sucessivas repetições, o meu cérebro passou a suportar bem mais coisas inesperadas e estranhas sem se estressar. No início, eu mal conseguia me concentrar por alguns minutos e logo tinha que trocar de contexto, senão, eu pirava. Nessa época, a frequência e o número de novidades eram muito maiores, bem como as criações. Porém, o meu cérebro se estressava com bem mais frequência.

Essas criações, no entanto, eram completamente cruas, necessitando várias revisões linguísticas, corte de partes inadequadas e etc. Eram como pedras preciosas recém extraídas da natureza. O meu trabalho de refinamento das publicações era muito maior e exigia muita paciência.

Hoje, as criações são bem mais raras. Porém, quando acontecem, me dão consistência de certeza de que possuem um valor alto. Essa certeza, me diz como compactar absurdamente as palavras-chaves dessas criações, de maneira que fiquem tão pequenas que eu não preciso anotá-las em nenhum meio externo, pois podem ficar no próprio cérebro em um lugar da memória privilegiado que a minha consciência consiga resgatar quando desejar.

Mas enquanto eu não resgatar, ela ficará esquecida, não parando o processo de enriquecimento feito pelo inconsciente. Essa memória que eu posso consultar quando eu desejar, e de forma rápida, é uma espécie de memória cache da consciência.

A evolução da organização da memória que o meu cérebro sofreu pode ser comparada com as vias de tráfego de uma cidade que iniciou cheia de semáforos, lombadas e redutores de velocidade e foi reduzindo gradativamente esses limitadores de fluxo com a melhora da malha viária e do controle de fluxo.

Hoje, a minha memória possui pouquíssimos limitadores de fluxo. Ela pode ser comparada com uma cidade planejada, como projeto inicial do Plano Piloto de Brasília. Dentro de uma via rápida, eu não crio nem percebo nada. Apenas faço o que tem que ser feito – sem nenhum tipo de ataque, só defesa – e sigo em frente.

Em função da necessidade de alívios, eu começo a inserir limitadores de fluxo e poluição visual/auditiva desnecessária em lugares vagos. Se isso continuar por muito tempo, o cérebro fica totalmente confuso e doente. Antes disso, eu organizo tudo de novo até ficar planejado. Daí a poluição volta a atrapalhar a organização. Isso se repete há anos.

Nessas repetições, eu descobri um truque sensacional: depois da organização da memória, eu preencho os lugares que ficariam vagos com alguma coisa de informação nula que pode ser facilmente remanejada e deixar o lugar momentaneamente vago só em alguma necessidade real. Por exemplo, disponibilizar essas áreas vagas para armazenar excesso de informação na consciência, evitando overflow de memória. Dessa forma, a consciência terá bem mais capacidade de armazenamento que o seu tamanho.

Ou seja, não lutar contra a poluição, mas sim, evitar que a poluição se instale. Sem muros de ataque, mas sim, trincheiras de defesa. Agindo assim, dificultará muito mais o overflow.

Paulo Ricardo Silveira Trainini

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