CAIXINHA DE SURPRESA

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CAIXINHA DE SURPRESA

Quando eu nasci, o meu cérebro era de um rico macaquinho. Aquele macaquinho só tinha dois neurônios, o Tico e o Teco.

O cérebro de um adulto tem muitos milhões de neurônios. Hoje, esses dois tiranos continuam em ação, mas junto com todos os outros.

Nos primeiros tempos, eu só chorava. Depois, a minha potência neurológica aumentou. Aí, eu já conseguia pronunciar “gugu dadá”, gritar e quebrar coisas.

Bah, ninguém podia com aquele moleque!
Depois de muita pesquisa, consegui descobrir,  finalmente, o significado de “gugu dádá”. Significa “bah”. Se aquele moleque entrasse na minha casa, eu diria “Lá vem o Bah, o terrível.”. Mas, ainda não descobri se “bah” era uma crítica, uma opinião ou uma vontade de fazer alguma coisa.

A pura observação de coisas que incendeiam o meu coração de um sentimento fortíssimo, mesmo incompreensíveis pela razão, adquirem consistência de certeza que essa é uma indicação do caminho certo. E essa certeza aumenta junto com o diâmetro da roda da potência neurológica.

macaco educado

Figura extraída de  https://www.youtube.com/watch?v=UbvqOXG9euU

Quando eu enfrento um inimigo invisível, tipo as turbulências amargas e inesperadas da minha doença (ataxia espinocerebelar), eu encaro esses sustos desagradáveis como quebra-molas na neblina. Mesmo sabendo da existência deles, não páro nem desisto. Continuo seguindo em frente, apenas diminuo a velocidade e a marcha.

Mesmo que isso faça a minha viagem demorar mais do que o previsto inicialmente, eu fico muito mais forte e corajoso. Verdade que essa miopia faz o inimigo parecer um monstro terrível e sádico. Mas agir assim, aumenta minhas chances de superá-lo e até puxá-lo pro meu time.

Para superar um quebra-molas não precisa destruí-lo. Basta passar por cima e seguir. É bem aí que a razão falha. Pelo seu desejo de impor uma opinião, ela pensa exclusivamente em como exterminá-lo.

Mas isso não é um erro. Ela precisa raciocinar assim para achar a cura de males mortais. Ainda bem que ela está presente e afiada em nós. Se não fosse isso, a tuberculose ainda seria mortal.

Mas, ela precisa fazer parceria com o sentimento. Quando esse sentimento incendiar o coração, dá ouvidos pra esse sentimento, ignora a razão. Apenas segue esse caminho. Com certeza razão seguirá atrás.

Esse bate-bola entre a razão e o sentimento é uma eterna caixinha de surpresa. Por maior que aumente a nossa potência neurológica, sempre nos depararemos com novidades inesperadas.

Paulo Ricardo Silveira Trainini

PRA FENTE BRASIL – Copa do mundo de 1970:

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